Arte se aprende no colégio
Profissões antes discriminadas estão em evidência, oferecem mais oportunidades de trabalho e até garantem mais status para que faz sucesso.
Há poucos anos, não era fácil dizer aos pais que se pretendia uma carreira artística. Por isso, era comum optar por cursos tradicionais e , só mais tarde, voltar à universidade para realizar o desejo antigo. Hoje, esse cenário é diferente. A pressão dos pais diminuiu, pois os preconceitos são menores, muitas carreiras ganharam status e o mercado passou a oferecer mais oportunidades, embora ainda concentre um considerável número de carreiras não regulamentadas nas quais até hoje coexistem oportunidades para graduados e para autodidatas. Atualmente, só no estado de São Paulo, cerca de seis mil estudantes se formam anualmente em cursos universitários com foco em Artes, segundo Lígia de Paula Souza, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo.
Segundo os especialistas, uma série de fatores conjugados contribuiu para a expansão no segmento das artes, entre eles a Lei de Incentivo à Cultura, que fez com que muitos espaços fossem criados. Além disso, há uma maior conscientização do fortalecimento dos valores culturais brasileiros, processo iniciado na década de 50. “Estamos revendo nossos modelos de tradição cultural, e mantendo intenso contato com que se passa no mundo contemporâneo”, diz Reynúncio Napoleão de Lima, professor adjunto do Departamento de Artes Cênicas, Educação e Fundamentos da Comunicação do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (UNESP).
Em Artes Cênicas, a ampliação das oportunidades de trabalho acontece tanto no campo da Licenciatura, pela abertura de vagas para professores na rede de ensino pública e particular de primeiro e segundo graus, como pela diversidade dos campos de atuação dos profissionais. Por exemplo, há programas de fomento que patrocinam grupos teatrais e iniciativas específicas para comunidades; a TV, que oferece oportunidades em telenovelas; o cinema, em filmes e dublagens; e a publicidade, em comerciais. Segundo Lígia de Paula “a profissão é gratificante não pelos salários, mas porque dá prazer social. O profissional sabe que será um agente transformador”.
Quem escolhe a área de Artes Cênicas, “em primeiro lugar precisa ter vocação, deve ler muito, ver exposições, freqüentar muito teatro, fazer oficinas extracurriculares”, aconselha Acácio Ribeiro Valim Júnior, coordenador do curso de Teatro da Universidade Anhembi-Morumbi.
Quem pensa que ingressar nesse mercado basta ter talento e criatividade, se engana. “Talento, entendido como habilidade, pode ser inato à pessoa. Contudo, sem um processo formal de desenvolvimento de competências, entendidas como a capacidade de mobilizar diversos recursos cognitivos, o talento pode se perder no meio da estrada da vida”, diz Alexandre Estolano, supervisor acadêmico de centro Universitário Belas Artes de são Paulo.
O ensino acadêmico de uma escola de artes não é o suficiente para que alguém entre no mercado e entenda de arte. “Como é um segmento de experimentação, empírico, é importante que o aluno tenha uma base transdisciplinar, isto é, transite entre outras disciplinas, para adquirir um conhecimento mais apurado e direcionado ao campo em que pretende atuar”, alerta o marchand Olívio Guedes, sócio da Galeria Slaviero & Guedes e diretor cultural do Museu Brasileiro de Escultura (Mube). Segundo Olívio, o mercado pede experiência e história, o que o Brasil ainda não tem suficientemente no mundo da arte, embora conte com artistas muito criativos. “Mas poderemos chegar lá, a partir da tecnologia. A associação de criação de arte com uso da tecnologia está explodindo no mundo e é promissora” .
(Revista Agitação Jan/Fev 2007)