SEMINÁRIO ARTE EDUCAÇÃO

Estiveram reunidos na sede do SATED/SP para o "SEMINÁRIO DE ARTE EDUCAÇÃO", Drª. MALU PUPO, Drª. SÔNIA AZEVEDO, Drº. CLÓVIS GARCIA, MS. MARLY BONOME, MS. JOSÉ SIMÕES, tendo como mediador JÚNIOR MOSKO e presença da Presidente do SATED/SP Lígia de Paula Souza, onde foi debatido a atuação do Arte Educador, abrindo as possibilidades de trabalho e os equívocos que a própria lei desfavorece o artista em nossa área . Segue alguns comentários dos debatedores do Seminário:

"É com enorme satisfação que a Universidade do Sagrado Coração, USC, Bauru tem em participar do 1º Seminário de Arte Educação dessa renomada entidade representativa da classe teatral. O evento reflete um novo perfil do SATED/SP que demonstra sua preocupação na orientação da capacitação de seus associados pela via acadêmica. A TVUSC, presente no evento, gravou os depoimentos para divulgação das palestras não apenas para os alunos do curso de Artes Cênicas da Universidade como também para os atores e demais interessados em teatro de nossa região." (MS. Marly Bonome, Coordenadora do Curso de Artes Cênicas).

"O I Seminário de arte educação no SATED/SP é importante, pois traz à discussão um tema altamente relevante, que é a capacitação universitária do profissional de Teatro que trabalha na educação - o professor artista. O Mercado para o profissional ligado ao Teatro - educação está a cada se ampliando, e para ocupar esse espaço são necessários esses encontros, para trocar experiências, conhecer novas práticas, enfim discutir e aprender." (José Simões de Almeida Jr. Coordenador - Licenciatura em Teatro/Arte-Educação Universidade de Sorocaba -UNISO).


Compareceram pessoas provenientes de todo o estado de São Paulo.

"Educação e Arte: Uma questão de oportunidade.

De muitos modos uma vida se constrói. A escolha de caminhos, a escolha da profissão que nos garantirá sustento e sobrevivência e, mais que isso, nos garantirá a felicidade de uma vida útil aos demais, prazerosa e produtiva, é etapa fundamental em qualquer biografia.

A oportunidade garantida pelos cursos livres de teatro, desde que gratuitos e para os quais não haja qualquer seleção técnica, abrem caminhos tanto profissionais quanto pessoais, na medida em que facilitam o acesso de toda e qualquer pessoa, de todas as classes sociais, ao estudo prático dessa arte milenar.

E nesse nosso século dificil, quando a vida das pessoas se encontra à mercê ou da miséria, ou da monotonia de rotinas imutáveis, ou da falta de perspectivas de vida, os horizontes que se abrem a partir da vivência artística bem conduzida, por profissionais habilitados, podem fazer toda a diferença entre vidas vazias e vidas profundamente férteis, até mesmo toda a diferença que existe entre morte e vida.

Garantir a oportunidade de existência de futuros possiveis ao maior número de pessoas é a missão de todo aquele que se envolve no ensino e na prática do teatro, enquanto poderosa arma contra a exclusão e a massificação a que todos, em maior ou menor grau, estão sujeitos." (Sônia Machado de Azevedo - Doutora em Artes - USP)


"ALÉM DAS DICOTOMIAS

Quando hoje fazemos menção ao nosso caro binômio "teatro e educação" ou "teatro- educação", estamos nos referindo a uma abordagem possível do fenômeno teatral cuja origem se confunde com a própria origem do teatro na Grécia Antiga.


Se autores como Platão e Aristóteles já examinavam as implicações do ato de fazer ou assistir à representação teatral, de lá para cá muitas visões diferentes sobre o tema vem se sucedendo no tempo e no espaço. Basta lembrar o quanto o próprio surgimento do teatro em nosso país obedece a diretrizes didáticas: é como nosso objetivo de inculcar a fé cristã na mentalidade de índios e degredados a serviço da colonização que Anchieta escreve textos e dirige representações teatrais em plena floresta.


A noção de que o teatro pode ter um papel relevante na formação do indivíduo não constitui portanto um dado peculiar à nossa época. O que tem sido variado através da história, são as concepções e os valores  subjacentes a essa aliança entre a arte e a pedagogia.


Diferentes visões do papel da educação foram sustentadas ao longo dos séculos, até chegarmos a esse início de milênio. Do mesmo modo o fenômeno teatral veio se transformando sem cessar. Diferentes têm sido os modos de fazer e pensar a representação, assim como funções diversificadas vem sendo atribuídas à cena, desde os tempos de seu surgimento em terras gregas até nossos dias.
 

As concepções que hoje partilhamos - ou debatemos - sobre as relações entre teatro e educação, dois campos tão complexos da ação humana, se configuram, portanto, como concepções tributárias de um logo percurso
histórico.
 

Pensamos o que pensamos sobre essa aliança porque a pensamos hoje, porque atualmente o teatro e a educação apresentam determinados contornos que não poderiam apresentar, por exemplo, nos anos cinqüenta.

 

Concluído o preâmbulo, gostaríamos de nos deter em um equívoco que paira frequentemente sobre as noções subjacentes ao nosso "teatro - educação".
 

Na expectativa de assegurar para si mesmos uma certa "reserva de mercado", não são poucos aqueles que atribuem ao nosso fazer uma conotação de faceta menor de um suposto "verdadeiro" teatro. Nossa atuação, por estar vinculada a uma dimensão pedagógica se distinguiria assim de uma outra, a dos artistas agraciados com a suma dádiva do "dom", desvinculados de compromissos com a formação do homem.
 

Caberia então formular uma interrogação essencial: a que interesse serve essa ênfase no "ser artista" ou "ser talentoso"? Quais as implicações dessa divisão da humanidade entre comuns e agraciados? Qual é a concepção do teatro que está sendo ressaltada quando vêm à tona noções dessa natureza?
 

Com intuito de rebater esse tipo de posicionamento, é oportuno lembrar, antes de mais nada, a amplitude do fenômeno teatral. Com efeito trata - se de uma modalidade artística que recobre grande multiplicidade de abordagens possíveis.
 

Desde a transformação dos materiais que ocupam o espaço cênico até as conotações metafísicas presentes dentro de um texto, inúmeros são os aspectos passíveis de serem objeto de exame. Perspectivas as podem iluminar de diferentes pontos de vista esse complexo acontecimento que é a representação.
 

Temos em mente uma questão essencial : saber se e como o fazer e/ou o fruir teatro podem contribuir para o crescimento de todo e qualquer indivíduo.Assim, os princípios que têm norteado nossa atuação nessa área têm sido tributários de uma visão contemporânea de teatro.Entre os traços mais marcantes desta concepção podemos destacar alguns: a busca de modalidades que incorporem uma atuação marcado por algum tipo de organicidade , um alargamento da noção de teatralidade para além do espetáculo nos moldes consagrados, a abertura para a experiência por parte de quem atua , a valorização do trabalho coletivo, o questionamento dos papéis habituais do ator e platéia e a ênfase na reflexão sobre o próprio processo de criação.
 

O observador atento vai logo perceber que o conjunto dessas características se vincula, em ultima análise, a perspectivas que muito têm a ver com a ampliação do potencial daquele que atua "como se" jogar ou se dê para ganhar a vida além de todas as gradações que se podem verificar entre ambas.
 

Em outras palavras: parece vão e equivocado estabelecer limites estanques entre nosso modo contemporâneo de encarar o teatro e as contribuições que essa arte pode trazer para a formação do homem. Quando pensamos o teatro à luz das últimas décadas, inevitavelmente estamos também examinando, implícita ou explicitamente, como o envolvimento com essa arte pode ampliar o espectro da percepção que crianças , jovens e adultos têm de si e do mundo.
 

Muitos dos diretores responsáveis pelas grandes transformações teatrais do último século, tais como Stanislavski, Grotowski ou Barba de certa forma foram também pedagogos. De modo radical eles sempre associaram a depuração de sua arte ao desenvolvimento pessoal daqueles que a praticam. Para eles a superação de si mesmo se coloca como uma meta inseparável da realização de um teatro que transcenda os códigos já consagrados. Preceitos de caráter ético sempre acompanharam seu projeto de renovação teatral.
 

Trazendo essa série de reflexões para o contexto especificamente brasileiro, podemos constatar que múltiplas e crescentes vêm sendo sendo as esferas de atuação de professores, diretores, coordenadores de oficina que assumem a responsabilidade de processos teatrais junto a grupos de todas as idades.
 

Fora dos espaços tidos como teatrais , diferentes instituições reivindicam cada vez mais aquilo que genericamente chamamos de "oficinas". É o caso de escolas , bibliotecas , centros culturais , favelas , movimentos sociais como o MST. Setores muitas vezes à margem da sociedade, tais como prisões e hospitais psiquiátricos vêm sediando experiências cênicas não raro carregados de radicalidade.
 

A situação brasileira atual, certamente desconcertante continua nos colocando diante da questão do acesso de todas as categorias sociais da população às diversas formas de teatro.Depois das históricas tentativas de realização de um teatro tido como popular, esse desafio hoje se instaura em outros termos, uma vez que soaria descabido reiterar a dicotomia entre a criação e a assim chamada ação social.
 

Quando coordenamos um processo teatral na periferia de uma metrópole, por exemplo, os cidadãos objeto de nossa ação são antes de mais nada, nossos parceiros de criação. Nesse sentido, cabe lembrar que o termo criação conforme o entendemos aqui se vincula à estruturação das conquistas de uma trajetória e não se confunde necessariamente com a acepção espetacular. O burilamento de um jogo pretensioso que seja , pode ser encarado como um acontecimento da ordem da criação partilhada.
 

Grandes diretores cinematográficos contemporâneos , como o iraniano Kiarostami, o grego Angelopoulos entre outros e, num registro diferente da ficção, o brasileiro Eduardo Coutinho, já compreenderam o quanto suas realizações ganham envergadura quando lançam mão dos chamado "não atores". Há muito esses cineastas já foram marcados pela força de rostos anônimos, pela vitalidade da atuação de pessoas desconhecidas do grande público , não catalogadas como talentosas, mas certamente abertas a uma processo de trabalho que assegurou ao seu desempenho um notável frescor.
 

Estamos pois aludindo a um modo de relação no fazer e no fruir teatro que possa romper com os modelos dominantes de consumo espetacular. Fazemos referência a uma prática artística plena, sem concessões, tecida a uma ação educativa, social, portanto sempre de cunho direta e indiretamente político. Temos muito a ganhar quando nossa prática derruba barreiras que tendem à cristalização. Temos muito a ganhar quando focalizamos nossos esforços em um processo teatral que traz em seu bojo, indissociável, uma ampliação da consciência de quem o vive.
 

É assim que podemos chegar à aquilo que almejamos: tornar possível a um grupo a articulação de sua visão de mundo e dos seus desejos  através de um discurso teatral.
 

A tarefa se torna então necessariamente dialética se partirmos da constatação que estereótipos, intolerância e preconceitos podem constituir parcela significativa da visão de mundo das pessoas implicadas. Nesse sentido, muito mais do que palavras de ordem ou libelos políticos, é o próprio processo sensível inerente ao trabalho teatral, é a ampliação das referências culturais por ele proporcionada que pouco a pouco poderão deslocar pretensas certezas e desfazer posições apriorísticas.
 

Assim, em grandes pinceladas tentamos esboçar a moldura na qual se insere o nosso compromisso com as pessoas que se dispõem à  experiência do teatro, ou melhor à experiência de alguma(s) forma(s) de teatro.
 

Cabe a nós, docentes universitários, a responsabilidade de propor uma formação profissional para que os nossos estudantes à altura de tão amplos desafios. Para que o papel desestabilizador do teatro seja cumprido, para que cheguemos a um fazer teatral que transcenda o imediato, cabe a nós pensar e propor uma formação de qualidade. Só ela pode assentar as bases de um avanço no âmbito de nossa área. Só uma formação consistente poderá fazer de nosso desempenho profissional o testemunho da relevância de uma abordagem pedagógica do teatro.
 

Desse modo, não é certamente aplicar jogos que se espera desses jovens. Formulações como essa reiteram uma visão redutora do nosso campo de trabalho, acarretando sem dúvida um desserviço à compreensão do nosso compromisso educacional.
 

Cabe aos jovens profissionais uma missão bem mais desafiadora e fonte de transformações: a de instaurar processos de apropriação do teatro, um modo peculiar de se conhecer o mundo". (PUPO, Maria Lúcia de Souza Barros. " Além das dicotomias". Anais do Seminário Nacional de Arte e Educação : 15º edição - Educação Emancipatória
e Processos de Inclusão Sócio - Cultural. Montenegro , RS: Fundação Municipal de Artes de Montenegro, 2000, p.p. 31 a 34.)

 

 


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São Paulo,